CAPÍTULO VII - 1984/1994

 







 

SERRA DE PAI PEDRO





CAPÍTULO I

Era idos de 1988, junho, pós invernada boa.

Tio Antônio tinha chegado do Rio de Janeiro, e veio ver como andava a lida de sua nova Fazenda, a Volta do Rio, recém adquirida de seu irmão, José Saturnino.

Almoçamos todos naquela quinta-feira, aquele  típico cardápio sertanejo. Carne assada, uma boa feijoada etc.  Aos descanso do almoço, tio Antônio perguntou a mim e ao meu primo se topávamos subir a Serra do Pai Pedro. A resposta foi imediata: SIM! CLARO!  - Então se organizem, sairemos bem cedo. – “Não se esqueçam de colocar uma boa calça jeans e botas. A Serra é inóspita, porém nos-tál-gi-ca!” Disse Tio Antônio so-le-tran-do.






E o que era isso? Inóspita e nostálgica? E ..., lá fomos nós, eu e meu primo, procurar por novéis vocábulos no dicionário. INÓSPITA: (..) Se o significado era isso, como nossos pais iriam deixar eu com 14 anos e o meu primo com apenas 10 se aventurar numa área perigosa? Menino é menino. Quem iria fomentar tal perigo na cabeça de nossos pais. Queríamos ir. E iríamos com o nosso tio que era homem experiente. Resolvido. Sobre o vocábulo 'nostálgica' desistimos de procurar para não bloquear a nossa expectativa.


CAPÍTULO II 

Madrugadinha tio ‘Zeca’ já estava no curral, ordenhando as vacas, que ficava ao lado da casa grande. – “Levanta menino! Se aprontem!” Alertou tio Antônio. Fila no banheiro que curiosamente ficava fora da casa, em cima de uns lajeiros. Banho ninguém ousaria tomar, pois o frio era intenso, contudo restava escovar os dentes e lavar o rosto. De quebra uma aguinha no cabelo para abaixar a juba. Café reforçado para enfrentar o dia que prometia.


Josenildo Medeiros Dantas. "Serra do Pai Pedro" 25 (vinte e cinco) anos depois.




Serra do 'Pai Pedro' parte leste






Sertão do Seridó





Se o sertão está dentro da gente,
não estranha que o sertão esteja
em toda parte, que o sertão seja o mundo
”.



De volta à Serra do Pai Pedro 



Dessa vez, a volta à Serra do Pai do Pedro foi diferente. A começar pelo guia que nos acompanhou até um certo ponto da subida. Infelizmente não pudemos contar com a sapiência de seu Zé de Lino. O pobre se encontrava amargando 14 pontos no pé, em decorrência de uma machadada desferida em si mesmo por acidente. Não podendo nos acompanhar, ele logo indicou outro nome: “Júnior, filho de Neto”. De cara ficamos nos perguntando: “Como alguém se chama Júnior tendo como pai alguém chamado Neto?” – Isso nos deu um verdadeiro nó nas têmporas. Coisas dos homens do sertão... “A casa de Neto fica lá no assentamento. Chame Júnior que ele vai com vocês!”, disse Zé de Lino muito solícito. Sobre o nome ‘Júnior’, cabe uma ressalva. A simplicidade do fala do sertanejo transforma nomes como Júnior automaticamente em “Júino”. Mas não convém explicar essa derivação sociolinguísticamente. Mais uma vez, coisas dos homens do sertão...  Chegando à casa de Neto, uma morada simples com uma cisterna, fruteiras e plantas ao redor, batemos palmas e apareceu uma senhora que se mostrou muito atrapalhada. Meu primo Jonathas, que esteve no primeiro ataque ao Pai Pedro, perguntou: “A senhora sabe onde fica a casa de Neto?”. E a dona respondeu: “Sei não. Acho que é pra banda dacolá”, disse ela, apontando pra esquerda. Meu primo ainda foi mais insistente: “Aqui não é mesmo a casa de Neto, pai de Júnior não?”. - “É não". Respondeu ela monossílabicamente.  Contrariado, Jonathas se lembrou que na Semana Santa tinha vindo com meu pai até a casa de Neto buscar peixe. Resolveu então ligar pra ele e tirar a prova real. “Tio, tô aqui naquela casa que a gente veio buscar peixe (...), mas a mulher disse que não é aqui”. Meu pai deve ter respondido de maneira meio rústica, pois ele desligou o telefone com um ar de riso e muito convicto foi logo dizendo: “Homi, é aqui mesmo!”. Chamamos pela dona de novo e ele disparou: “A senhora conhece Jácio?”– “Conheço.”– “Pois é. No começo do ano a gente veio aqui buscar peixe. A senhora se lembra?”– “Me lembro”. – Pois ele falou que aqui é a casa de Neto, pai de Júnior”. E ela articulou com toda a displicência do mundo: “É sim!”. Meio zangado, meu primo soltou um sonoro “oxente” e debulhou o resto: “Rapaz, eu não perguntei se aqui não era a casa de Neto?” – “Perguntou.” – “Pai de Júnior?”. – “Perguntou”. – “Então porque diabo a senhora disse que não era aqui?”. – “Viche, é mermo né?” – Rebateu a senhora coçando a cabeça meio confusa. Não verbalizei, mas o meu pensamento exclamava um sonoro “Puta que pariu!”. Minutos depois, lá vinha Júnior recém saído do banho. Um tanto mirrado, o rapaz, que aparentava uns vinte e poucos anos, mesmo um pouco cansado, já que tinha subido a serra na noite anterior pra caçar, se prontificou em nos colocar na trilha certa para o pico da Serra do Pai Pedro. “Xô pegá minha alpercata e uma camisa que a gente sobe”. Depois disso, Júnior só abriu a boca quando chegamos num certo ponto da serra e ele deu as suas últimas coordenadas. Me lembrei de Graciliano Ramos e de Vidas Secas: “Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar falando alto”. Júnior era assim. Falava pouco, mas quando falava, falava alto.  Antes que ele fosse embora e nos deixasse ali na solidão do píncaro, pedimos que ele tirasse uma fotografia com a gente. Mas o lacônico cicerone sertanejo se negou dizendo: “Deixe pra lá, deixe pra lá”. Esse fato nos descontraiu nos primeiros minutos sem o nosso guia. Confesso que fui o primeiro a soltar um comentário satírico: “Ele deve achar que a alma dele vai ficar presa na máquina...”. 

A subida 


Durante as cinco horas da subida, o sol quente foi o principal inimigo. Não tínhamos nenhum termômetro, mas a julgar pelo suor em nossas testas e pela sede constante, posso garantir que a temperatura naquela geografia serrana ultrapassava os quarenta graus fácil fácil... Diferente da primeira tentativa, a nossa peregrinação pela trilhas da Serra do Pai Pedra foi, de certo modo, mais tranqüila. Pelo menos em relação à subida. Pegamos uma vereda aberta do pé até o pico da serra e depois de uma hora de caminhada chegamos a uma casa abandonada*, que em outras épocas serviu de base ou moradia para alguém da região. 






Atapetado ora por pedras soltas, ora por areia quente, o caminho era um misto de cactos, xiquexiques, catingueiros, pereiros e pés de mofumbo. Além da flora agressiva e bucólica, era comum a presença de calangos nos espreitando por entre os pedregulhos, lagartixas se esgueirando pelas árvores, preás sorrateiros e animais peçonhentos como a Jararaca que avistamos. Eu e o argentino Juan tentamos fotografar a cobra, mas a serpente se perdeu rapidamente pelas gretas do Pai Pedro. 
Com a fotografia frustrada pela agilidade do animal, o jeito foi seguir o rumo até o bendito topo da serra. Com mais algumas passadas, goles d´água e pequenas pausas para o consumo de barras de cereais ou bananinhas desidratadas, como era o caso de nosso amigo Gustavo, demos de encontro com mais uma casinha perdida na imensidão da cordilheira. O pauperismo da construção se traduzia em paredes de tijolos aparentes e telhas feitas nas coxas, já que olhando para o teto, ficava patente a tamanha diferença entre uma e outra. Mesmo com a possibilidade de aquilo tudo vir abaixo a qualquer momento, a casa que, atualmente era sustentada por algumas vigas de madeira nos serviu muito bem. Ali pudemos comer, dormir um pouco e produzir alguns contrastes. Sacamos das mochilas multifuncionais e repletas de compartimentos, nossas comidas industrializadas como pão integral, salame, barras de cereais, isotônicos e outras maravilhas da engenharia alimentícia e nos fartamos. Muito diferente de um outro grupo que também utiliza aquela casa como ponto de apoio: os caçadores e seus bizacos artesanais.




Dicotomias à parte, depois de forrada a pança e terminada a siesta, seguimos de uma vez por todas até o final da nossa expedição. Tínhamos um sentimento em comum; acontecesse o que acontecesse, dessa vez só sairíamos dali depois de conseguirmos domar o velho Pai Pedro. E assim o fizemos. Com pouco mais de cinco horas de caminhada entre pedras, areia, mato seco, goles d’água, conversas mirabolantes, alguns arranhões, aulas de obscenidades ditas em castelhano pelo argentino Juan, pausas para fotografias, “idas ao banheiro”, mais goles d’água, aforismos e falação da vida alheia, alcançamos finalmente o topo da Serra do Pai Pedro. Aleluia!

Entrelinhas 






Até lá no topo do Pai Pedro a figura já mitológica do Capitão Nascimento se fez presente. Meu primo Jonathas, que deve ter visto o filme Tropa de Elite pelo menos umas sete vezes resumiu, de certo modo, o sentimento do grupo verbalizando mais um famoso bordão do cinematográfico Capitão: “Missão dada, é missão cumprida”. Chegando em cima da Serra do Pai Pedro, a primeira sensação que tive foi de contemplação. Lembrei dessa vez de Jack Kerouac e dos seus “Vagabundos Iluminados”. Um clássico da literatura beatnik, o livro narra as aventuras de jovens adeptos do montanhismo que vivem com o mínimo de dinheiro e são alheios à sociedade de consumo norte-americana. Lá para as tantas uma das personagens solta o seguinte aforismo: “É, cara, sabe que para mim uma montanha é um Buda. Pense na paciência, centenas de milhares de anos só paradas ali perfeitamente silenciosas...”  O silêncio da cordilheira foi quebrado quando chegamos numa das escarpas do Pai Pedro e Jonathas começou a gritar na tentativa de produzir ecos. Não preciso dizer que o resto da equipe entrou na brincadeira e que ficamos por uns cinco minutos gritando feitos uns doidos naquela imensidão de pedra, não é mesmo? Sobre as casinhas abandonadas...   





Nas serras do Seridó, é muito comum encontrarmos casebres que, à primeira vista, parecem não ter um propósito bem definido. O incauto deve pensar: “Como alguém pode viver aqui em cima, sem água e sem ninguém por perto?”. Existem pelo menos dois motivos consideráveis sobre essas casas aparentemente despropositadas. O primeiro deles se deve ao fato de que na envernada, os fazendeiros mandavam suas boiadas para passar uma temporada na serra engordando. O segundo fica por conta do plantio do algodão mocó, comum na região. Por isso, a construção dessas casas.

OUTRO CONTO - OUTROS PERSONAGENS - MESMO LUGAR 

CAPÍTULO I

Era idos de 1988, junho, pós invernada boa. Tio Antônio tinha chegado do Rio de Janeiro, e veio ver como andava a lida de sua nova Fazenda, a Volta do Rio, recém adquirida de seu irmão, José Saturnino. Almoçamos todos naquela quinta-feira, aquele  típico cardápio sertanejo. Carne assada, uma boa feijoada etc.  Aos descanso do almoço, tio Antônio perguntou a mim e ao meu primo se topávamos subir a Serra do Pai Pedro. A resposta foi imediata: SIM! CLARO!  - Então se organizem, sairemos bem cedo. – “Não se esqueçam de colocar uma boa calça jeans e botas. A Serra é inóspita, porém nos-tál-gi-ca!” Disse Tio Antônio so-le-tran-do.


E o que era isso? Inóspita e nostálgica? Ave Maria ..., lá fomos nós, eu e meu primo, procurar por novéis vocábulos no dicionário. INÓSPITA: (..) Se o significado era isso, como nossos pais iriam deixar eu com 14 anos e o meu primo com apenas 10 se aventurar numa área perigosa? Menino é menino. Quem iria fomentar tal perigo na cabeça de nossos pais. Queríamos ir. E iríamos com o nosso tio que era homem experiente. Resolvido. Sobre o vocábulo 'nostálgica' desistimos de procurar para não bloquear a nossa expectativa. Madrugadinha tio ‘Zeca’ já estava no curral, ordenhando as vacas, que ficava ao lado da casa grande. – “Levanta menino! Se aprontem!” Alertou tio Antônio. Fila no banheiro que curiosamente ficava fora da casa, em cima de uns lajeiros. Banho ninguém ousaria tomar, pois o frio era intenso, contudo restava escovar os dentes e lavar o rosto. De quebra uma aguinha no cabelo para abaixar a juba. Café reforçado para enfrentar o dia que prometia.

Continua ..


Josenildo Medeiros Dantas. "Serra do Pai Pedro" 25 (vinte e cinco) anos depois.



Serra do 'Pai Pedro' parte leste




Sertão do Seridó


Se o sertão está dentro da gente,
não estranha que o sertão esteja
em toda parte, que o sertão seja o mundo
”.



De volta à Serra do Pai Pedro 



O MUSEU HISTÓRICO DE ACARI É UM RELICÁRIO DA HISTÓRIA DE NOSSO POVO 

O surgimento de um museu é uma construção social, por isso, definir um conceito único de museu se torna praticamente impossível. No museu se possibilita a percepção individual de cada ser humano e, por ser quase um sinônimo de expressão de sentimentos, cada um percebe que museu de acordo com as próprias experiências de vida, cria um diálogo único com o que está sendo visto, ouvido ou sentido. Essa conversa permite que o museu ganhe um significado singular para cada pessoa, e é por isso que estimular desde cedo o contato com o universo museológico e cultural é tão importante. Ao longo dos 30 anos, formou-se uma coletânea de acervo, àquela altura, do monumento que já contava com mais de 1.200 peças de significativo teor cultural – um relicário da memória do povo acariense. O acervo do museu histórico de acari constituiu-se, em sua maior parte, através de suas aquisições e doações de peças e testemunhos materiais voltados para exposições realizadas a cada ano. O museu histórico de acari, considerado museu do sertanejo, portanto, configurou-se como o espaço responsável pela guarda, manutenção e preservação do acervo artístico, cultural e documental do povo sertanejo. Com esse propósito, o museu foi concebido pela ideia do acariense Cipriano Santa Rosa, institucionalizado pelo então prefeito Jose Fernandes Neto, pensado e projetado pelo museólogo Hélio de Oliveira. Mais acima de tudo desejado pelo povo de acari. Em razão de seu caráter museológico, o acervo artístico, cultural e bibliográfico do museu histórico de acari projetou-se como uma importante fonte de consulta para professores, alunos e pesquisadores e visitantes. Atualmente, o seu acervo conta com um diferencial, apresentando um repertório diversificado e significativo da produção cultural, sublinhado por uma constelação de nomes expressivos que ao longo dos anos vem em destaque, naturalmente, para o segmento do cotidiano do povo sertanejo. Nosso museu é sem soma de dúvidas um organismo conector de relações de parcerias culturais com outras instituições. O nascimento do museu histórico de acari é uma conquista de tamanha grandeza para a preservação da memória histórica, que reitera a importância e a legitimidade desse patrimônio cultural tão vivo e tão presente na vida cotidiana do povo acariense. O museu é um sistema complexo modelado por múltiplas dimensões: tradição, cultura, lugar político, promoção social, território para processos de ação sociocultural, educacional, cientifico e experiência. O MUSEU HISTORICO DE ACARI foi pensado para trabalhar em projetos de incentivo a conservação, preservação e manutenção das práticas cotidianas de nosso povo. Esta iniciativa contribui para o contato com as diversidades da nossa cultura. Também existe a pretensão de ampliar cada vez mais o seu acervo museológico, por meio de projetos de exposição temporária e permanente que incentivam o gosto pela história, cultura e as artes acarienses. Apoiando e produzindo novas coleções documentais. A propósito como produto turístico vem incentivando o conhecimento da nossa cultura, proporcionando inclusão social e preservação da memória e do patrimônio cultural do povo acariense para o desenvolvimento sociocultural. A proposta de concepção conceitual do museu do sertanejo teve como objetivo lato a sistematização de um museu, instituída nas bases de definição do internacional council of museums – icom – para museus, como segue: “o museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, estuda, informa e expõe para fins de pesquisa, comunicação, educação e deleite os testemunhos materiais do homem e do meio ambiente”. O museu abrigado na casa de câmara e cadeia, do século XIX, considerado monumento histórico nacional, faz uma homenagem ao nome do município acariense. a exposição permanente traz um acervo representativo que conta com peças raras de valor inestimável, retratando em módulos do algodão, da pecuária e da pesca, fazendo assim uma leitura dinâmica do povo sertanejo. Quanto mais conhecermos nossa história e valorizarmos nossa historia e nosso patrimônio cultural, mais capazes estaremos preservando nossas memórias e construindo novas. O museu do Sertanejo é um relicário da história de nosso povo, dar visibilidade a vida do homem sertanejo. Retratando seu modo de viver e falar, de sentir e fazer a cultura processada nos seus hábitos e costumes de gerações e gerações. Texto produzido para os 30 anos de Museu por Sérgio Enilton da Silva ex-diretor do MHA - Bacharel e licenciado em História - Especialista em Patrimônio Histórico Cultural e Turismo pela UFRN


O meu pai, além de motorista era vaqueiro. Foi vaqueiro por muitos anos, sobretudo na década de '80' do Dr. José Vinício Dantas. Grande latifundiário das cercanias seridoenses. Deputado Estadual aposentado, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado era um prosador. Das caronas conseguidas pelo o meu pai ... viajava de Acari a Macaíba, onde eu estudava no Colégio Agrícola de Jundiaí, escutava muitas histórias e causos, até hoje impregnadas no meu subconsciente. 





A tarde já se anunciava nos longes, nas distâncias azuladas das serras, quando a fome chegou. E por isso fomos bater à porta da casa grande do Ingá, de alpendres abertos para o boqueirão do Bico da Arara. E ali ficamos, arranchados na generosidade de Maurício Galvão, senhor do seu chão antigo já vivo de quase dois séculos. E derramei os olhos numa das mais belas paisagens do sertão do Seridó: a contracena dos casarões do Ingá do alto e do Ingá de baixo, velhos como a história dos moradores de lá. Passava, de vez em quando, um vento calmo e frio. Recortado no gume das serras, para depois alisar a copa de um fícus no copiá da fazenda, e escorrer no chão dos lajedos molhados. E por isso a boa cachaça que o conselheiro Haroldo Bezerra levou no alforje, dava ao ritmo da conversa o conforto de amornar a alma. E ainda nos era dado merecer o bom humor de Eduardo Melo com seu jeito sertanejo de saber ser companheiro de viajem, imune à pressa e à impaciência dos viajantes sem vida e sem graça. Numa hora assim, e perdoem o abuso, mesmo o melhor uísque não consegue ter mais fidalguia do que a cachaça com serigüelas frescas, colhidas no pé daquelas serras, e adoçadas pelo calor da seca que tempera a vida. No Ingá, os umbus silvestres, os mais doces do Seridó, só amadurecem lá nos fins de fevereiro, começos de março. Depois de um lento e bíblico processo de maturação, até que percam a leve penugem que protege o fruto e, assim, luzidios e entumescidos, façam a festa do prazer sem igual. Sem pouso merecido no sertão, a não ser, e muito raramente, na sombra e água fresca do Ingá, não sei de outras mesas como a sua. Numa casa despojada de tudo, sem soberba e sem pedantismo, como a vida monástica do sertão. Só sei da casa de Acauã, no pé da Serra do Macaco, ribeira do Potengi, chão e baronia de Oswaldo Lamartine. No Ingá, mesmo que seu senhor seja um bom bebedor de uísque, o brilho do malte não vence a tradição da casa sertaneja, com sua mesa farta e feita de velhas fidalguias. Almoçamos, nessa mesa velha e senhorial, uma turina com capote - coberta por fina camada de gordura que refoga e ao mesmo tempo cozinha a carne no calor brando e perfeito de um fogão de lenha. E Farofa de ovo das galinhas de capoeira, com suas gemas quase vivas, como se fossem pequenas luas acendendo no branco da porcelana, o instante mágico da mesa posta. E com direito, na sobremesa, à soberba de não aceitar os doces com aquelas serigüelas que, de tão maduras, parecia acesas como brasas. Nem falo do café forte e quente. Das volutas azuis da fumaça do charuto completando o desenho das nuvens. Falo da paz. Da celebração de silêncios e ruídos, orquestrados pelos galos-de-campina e a suave canção dos córregos na babugem verde que explode, preparando o chão de feno que um dia encantou os olhos da poetisa Zila Mamede. Falo da festa do sertão de inverno. E, enternecido, deixei o Ingá olhando no alto o casarão de duas águas, como se lá ainda brincasse o menino Oswaldo Lamartine. 

Vicente Serejo. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CAPÍTULO VIII - 1994/2004

CONCLUSÃO