CAPÍTULO VIII - 1994/2004
João 13:34-35
Cruzeta, 16 de novembro de 1999.
Os Índios eram boçais, preguiçosos, indomáveis, resistentes à servilidade e ao trabalho regular, intemperantes, viciosos, antropófagos, mas eram “papel branco para neles escrever à vontade” (p. 125). Havia mister educá-los e defendê-los para que se educassem. Os Brancos preavam-nos, ferravam as “peças”, vendiam-nos, usando e abusando deles, como se fossem animais. Para os proteger, chegavam os Padres a fechar os olhos à escravidão negra. Obedeciam a breve de Paulo III, de 1537, que declarava os Índios “entes humanos como os demais homens não podiam ser reduzidos ao cativeiro (ao Cardeal Arcebispo de Toledo, em 28 de maio). Urbano VIII faz a doutrina extensiva ao Brasil. Mas, ainda assim, entrariam em constante conflito com os reinóis predadores até a expulsão dos Jesuítas de S. Paulo em 1640 e de Vieira e Companheiros, no Maranhão, em 1661. Finalmente a extinção da Companhia, mais tarde, prêmio de martírio concedido aos Jesuítas protetores da raça aborígene. Em vinte anos porém, de apostolado, a moral está mudada na terra. Os Índios têm sua mulher, sua família, sua casa, sua roça e já não são antropófagos e têm hábitos civilizados. Os reinóis começam a entrar na regra. Clérigos e leigos sofrem a influência contagiante da moral jesuíta, feita de pureza e tolerância. Amanhece o Brasil.
A identidade moral de todos foi feita pela educação. Desde 49, na Bahia, que o P.e Vicente Rodrigues tem aula para reinóis e índios. O P.e Azpilcoeta Navarro traduz, em tupi, orações e catecismo, para a conversão. O irmão José de Anchieta institui uma gramática da língua da terra, que todos aprendem, para a catequese. Aulas de latim e de casos aos irmãos: o irmão Luiz Carvalho ensina Virgílio, o 2.º livro da “Eneida”, na Bahia dos meados século XVI. Os batismos são sem conta, como os casamentos. Às vezes tornam à barbárie, mas não se esmorece: mais catequese, mais exemplos. O P.e Antônio Rodrigues penetra no sertão e vem, rasgado dos espinhos dos matos, pés chagados das pedras do caminho, à frente de centenas de índios, a entoar a ladainha. A educação dos filhos traz a educação dos pais. À rainha Dona Catarina quererão escrever esses pais para que lhes mande santas mulheres, que lhes façam, às filhas, o que os padres fazem aos filhos.
Esses Jesuítas foram edificadores de casas, igrejas, colégios, até cidades: Bahia, S. Paulo, Rio são fundações deles, em grande parte. Em vinte anos, vemos as palhas que eram a igreja e o colégio da Bahia reconstruídas em taipa, chegarem à pedra e cal, antes da cantaria da Catedral, no Terreiro de Jesus; Piratininga saiu de onde era, para se tornar São Paulo, em torno do Colégio dos Padres, que das alturas de um oiteiro dominava as várzeas do Tietê e do Anhangabaú. Foram médicos, e a medicina, ou o remédio; enfermeiros, assistiam aos abandonados e enterravam os mortos. As epidemias e andaços coloniais eram calamitosos, em raça de corpo aberto, nova aos contágios civilizados. Há trechos de cartas que fazem horror, descrevendo as pestes de 59 a 63. “Contaminou a mor parte da terra” e apenas “escassamente deixou viva a quarta parte dela”, diz o cronista P.e Simão de Vasconcelos, desta pestilência de bexigas. A tudo, a tratar, a preparar para morrer, a ajudar na morte, a enterrar, ocorriam os Padres. E não só contra as doenças e pestes contra a fome e a míngua, “porque esta pobre gente é tão miserável e coitada, diz o P.e Baltasar Fernandes, que espera lhe demos do nosso”, que não tinham muitas vezes, pois, no princípio, viviam de esmolas. Chegavam “a tanta miséria, esse Gentio, que, de fracos e magros, morriam por esses matos.” “Acontecia, diz ainda o P.e Leonardo do Vale, de lançar-se um para beber água e ficar ali, sem mais se poder levantar, e assim morrer.” “A causa desta pobreza, disse o P.e Jorge Rodrigues, é por a terra em si ser pobre.” Mas apelavam para os Padres, que a tudo acudiam.
Eram a “poçanga” da colônia, dizia o gentio, como quem dissesse: a mezinha, o remédio, a salvação. Os Jesuítas Portugueses foram a nossa Providência, ao nascer o Brasil. A epopéia dos “Lusíadas” tem o reverso da “História Trágico-Marítima”, em que se conta o martírio das Navegações, e tem o das “Cartas Jesuíticas”, que são os anais, sofridos, da Colonização. Quem podia testemunhar, testemunhou. Tomé de Sousa, tornando a Portugal, confessou: “o Brasil não era senão os Padres” “que se lá estivessem seria a melhor cousa que el-Rei teria, e senão que nada teria no Brasil...” (Cartas avulsas, p. 19).
Das quatro vezes que se tem notícias que o primeiro Rei do Cangaço, Antônio Silvino, perscrutou em andanças pelos vales potiguares, em duas delas passou pelas ribeiras d’Acauã, em Acari. Em ambas, não visitou a sede da cidade. Talvez tenham ocorrido até mais visitas, as incursões nesses solos de Poty. Mas, somente quatro estão registradas no livro do escritor Sérgio Augusto de Souza Dantas, cujo título é Antônio Silvino – O Cangaceiro, O Homem, o Mito.É fazendo a prazerosa leitura que podemos saber da fantástica e corajosa resposta que o Coronel Silvino Bezerra mandou para o Governador do Sertão, como o cangaceiro também era conhecido. Pois Antônio Silvino havia mandado o Coronel Manoel Bezerra de Araújo Galvão fazer a coleta na cidade. O coronel encontrou-se com o senhor Cypriano Pereira e as exigências lhe foram confiadas e levadas ao conhecimento do chefe político de então. O Coronel Silvino Bezerra, não se intimidando com a fama do Capitão do Mato, outro epíteto de Antônio Silvino, mandou dizer-lhe a ordem que saísse da cidade imediatamente. Também no livro descobrimos, quase que boquiabertos, da coragem sem igual de Félix Pereira, delegado e pai do Dr. Félix Bezerra, esse último na época Promotor de Justiça em Acari, que se encontrando sozinho com o cangaceiro e seu bando, tendo apenas a vasta caatinga como testemunha, negou-lhe o mesmo pedido e ainda se identificou como delegado da cidade. E foi sobre a marcha de Antônio Silvino, depois do episódio com o delegado, que eu vim hoje aqui para contar, já que não a encontramos no livro citado. Vicente de Paula Araújo, conhecido em nosso meio como Vicente Aprígio, ou mesmo Vicente de Benedita; filho de Tereza Pires Galvão, ela filha de Antônio Pires de Albuquerque Galvão (Major Pires) e terceira esposa de Manoel Aprígio de Araújo Galvão; contou-me que por diversas vezes ouviu da boca de sua mãe a singular narrativa de um fato acontecido num finalzinho de tarde do mês de novembro de 1914, no lugar chamado Carnaubinha, nesse município de Acari. Dona Tereza contava que estava o Major Pires sentado em seu alpendre, já em roupas de dormir, quando viu um morador da fazenda vizinha se aproximando com alguém desconhecido. O morador atendia pelo nome de Caboclo e, achegando-se mais, foi logo apresentando o companheiro de jornada: - Major, esse é o Capitão Antõe Silvino. A princípio o major pareceu sofrer um baque, ouvindo o nome do Rifle de Ouro, outro apelido do cangaceiro, ficando de olhos serrados em Caboclo, sem pestanejar e mudo. Conhecia bem a fama de facínora que o homem apresentado tinha. Estaria descrente, ou já totalmente rendido? Mesmo assim, sentenciou com voz vacilante ao morador: - Hômi, deixe de brincadeira, Caboclo! Então, o cangaceiro se apresentou e até brincou com o major que, a essa altura, se mostrava temeroso em demasia e tremendo muito. Garantiu-lhe ser a visita de paz e, talvez depois de algum sinal, num instante a cabroeira saiu de dentro do mato e se juntou no alpendre, fazendo o major acreditar de vez na conversa dos dois homens, contudo se acalmando. Logo foi servido soberbo café para todos, com ovos, carne seca com farinha e os bolos existentes na casa, mais bolachas e biscoitos, além de leite e queijo de coalho. No entanto, apenas o próprio Antônio Silvino entrou na sala do major e dividiu a mesa com o mesmo, acautelando-se de sentar de frente para a porta, trocar as xícaras com o major e só iniciar a sua refeição após o dono da casa. A chusma de cabras continuou no alpendre, com suas armas reluzentes, ainda segundo Dona Tereza contava ao filho Vicente. Saciada a fome de todos, o major perguntou-lhe se ainda queria alguma coisa. Já escurecendo, Antônio Silvino olhou por uma janela que dava para dentro do curral. Ali divisou um boi manso, de carroça, e pediu apenas o valor do animal. Recebeu assim 50$000 (cinquenta mil réis). Noite feita, o cangaceiro pediu um guia ao major. Queria alcançar a Paraíba o mais breve possível. O major designou Manoel Inácio, seu vaqueiro de confiança, e combinou que pela Estrada do Bico seria o melhor caminho. Entretanto, quando alcançaram o meio do mato, Antônio Silvino indagou ao vaqueiro guia se havia uma outra estrada, e segredou a Manoel Inácio que sentira “falsidade no abraço daquele homem”, sem dizer, porém, de quem falava. O guia considerou o pedido e acabou levando o bando por outras veredas e assim, sem saber e sem querer, ajudou-o a desviar-se do grupo comandado pelo delegado Félix Pereira e seu filho, o promotor Félix Bezerra, que lhe esperava no lugar chamado Boqueirão, na fazenda Bico da Arara. Horas mais tarde, chegava à casa do Major Pires o senhor Francisco Elviro, irmão de Dona Tereza, vindo de sua propriedade nas adjacências da Serra do Bico da Arara, dando conta de haver sido parado pelo grupo do promotor e que, por ter sido confundido com cabra de Antônio Silvino, teve armas postas sobre ele. Dizia ter escapado por pouco. Dessa fuga, que se deu pelo começo do mês de novembro de 1914, o bando atravessaria a Paraíba e entraria em Pernambuco. Ali, no dia 27 de novembro do mesmo ano, Antônio Silvino seria alvejado e preso pela polícia. Mas para saber da história com mais propriedade, o bom mesmo é comprar e ler o livro do Dr. Sérgio Dantas. Uma leitura ímpar!






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