CAPÍTULO VI - 1974/1984

  Sob o signo das lealdades familiares e das ausências prolongadas que, ao longo do tempo, redefiniram a posse e o vínculo com a terra. Após o falecimento do patriarca João Rafael Dantas (1888-1975), a maior parte dos herdeiros optou por alienar suas parcelas do sítio Volta do Rio, fragmentando o patrimônio outrora coeso; todavia, Maria Benta de Albuquerque  (n. 1930) sobressaiu-se por sua postura resoluta ao recusar-se a vender sua quota a irmão Antônio Pires de Albuquerque Galvão (1926-1998). 

Em gesto que traduz tanto solidariedade quanto senso de continuidade familiar, transferiu sua parte ao sobrinho José Pereira de Medeiros (n. 1955) filho de seu outro irmão José Saturnino Pereira de Medeiros, Zé Rafael, (1924-2014), assegurando, desse modo, a permanência do domínio no seio da família de forma distributiva, sendo este, até o presente, o detentor da posse. 

Em contraste, a trajetória de Antônio, também herdeiro e comprador das demais cotas, revela um percurso marcado pelo afastamento que após adquirir sua parcela, retirou-se definitivamente para o Rio de Janeiro, mantendo, por algum tempo, visitas esporádicas, até que seu paradeiro se tornasse incerto. 

Deixou dois filhos, igualmente distanciados da terra e da parentela, cujas existências seguem desvinculadas daquele espaço, jamais tendo retornado ou demonstrado interesse pela propriedade, hoje mantida sob os cuidados do filho de Chiquinha Pires,  sobrinho da família, que assume, de fato, a continuidade da presença física no lugar.

O afastamento de Antônio não se deu sem causa, antes tendo origem em uma ruptura profunda com o próprio pai, marcada por palavras duras e irreversíveis, proferidas em momento de tensão que selou sua partida. A promessa, carregada de ressentimento — de que somente retornaria após a morte paterna — foi cumprida com rigor, resultando em um exílio voluntário que se estendeu por cerca de quatro décadas. Somente após o falecimento do genitor é que Antônio voltou à localidade, encerrando um ciclo de distanciamento que, embora fiel ao juramento feito, não logrou recompor os vínculos outrora desfeitos.

A partir da década de 1970, a dinâmica familiar passou a organizar-se em torno de novos arranjos de moradia e de exigências impostas pelo patriarca João Rafael, cujo rigor moldava o cotidiano dos seus. Quando Zé Rafael regressou de Minas Gerais, no ano de 1970, foi-lhe concedido sítio Vota do Rio para residência e sustento, condicionado, entretanto, ao cumprimento de obrigações específicas relacionadas à subsistência e ao abastecimento de outros membros da família. 

Entre tais encargos, incluía-se o envio regular de leite para Suzana, residente em local que, posteriormente, viria a ser ocupado por Lucas. A logística doméstica implicava ainda o fornecimento de lenha para o fogão e de sabugos de milho, utilizados para fins de higiene, cujo transporte era realizado por um homem chamado Caneludo, valendo-se de uma caminhonete que cruzava os caminhos poeirentos de Gargalheiras ao centro de Acari. Em paralelo, os filhos de Zé Rafael e demais trabalhadores dedicavam-se intensamente à colheita do algodão nas serras, atividade árdua que consumia grande parte do tempo e das energias, traduzindo a dureza do labor rural naquele contexto.

Não obstante, um ambiente doméstico permeado por disciplina severa, em que a autoridade de Zé Rafael se exercia de forma rígida, ainda assim, entre as agruras e limitações, subsistiam momentos de convivência mais serena, como as conversas ao entardecer, que, embora simples, representavam instantes de partilha e humanidade no interior de uma rotina marcada por dificuldades, disciplina e resistência.


Partida de João Raphael Dantas, velório na casa da rua Matriz

O Sr. João Raphael Dantas era uma pessoa de total confiança de Juvenal Lamartine, possuía estreitas ligações com a família do ex-governador, de quem era compadre, por ser o antigo casal governamental padrinho de Francisca Dantas Pires — d. Chiquinha.


Fato interessante é que d. Chiquinha Pires, nos anos 1990, quando da fundação do Museu Histórico do Acari, fez doação ao museu da cama que havia pertencido ao casal Octavio/Dinorah, depois de nela terem nascido ela, d. Chiquinha, e seus irmãos.


Em sua propriedade, no Acari, ainda existe um móvel que servia de guarda roupas para as filhas do casal Octavio/Dinorah e que encontra-se em perfeito estado.


Eis os únicos bens móveis que restaram daquele casal cuja vida matrimonial tinha apenas sete anos.


No dia 27 de maio de 1935, a Companhia Nacional de Seguros de Vida “Sul América”, pagou a importância de 18:700$200 (dezoito contos setecentos mil e duzentos réis), a Maria Dinorah Lamartine, como beneficiária, liquidando a apólice 328.309.Os inventários de bens ou inventários pos-mortem sempre foram fontes históricas privilegiadas para fornecer diversas informações sobre uma pessoa ou sociedade.


Decorridos oito anos da morte de Octavio Lamartine, o Dr. José Nicodemos Silveira Martins, promotor público da Comarca de Acari, no dia 30 de abril de 1943, peticionou ao Juiz de Direito Dr. Oscar Homem de Siqueira, solicitando a imediata citação de Maria Dinorah Cavalcanti Lamartine, “para no prazo de cinco dias, prestar compromisso de inventariante e vir dar a inventário os bens deixados por seu marido sob as penas da lei”.


Solicitava ainda que a notificação fosse por edital, com prazo de sessenta (60) dias, publicando-se no jornal oficial, visto a cônjuge sobrevivente residir atualmente no Rio de Janeiro em lugar incerto e não sabido.


No dia 3 de maio de 1943, o edital foi publicado. Como d. Dinorah não foi encontrada, o juiz Oscar Siqueira nomeou o Sr. Olavo Lamartine como inventariante dos bens supostamente deixados por seu irmão Octavio, no dia 17 de julho de 1943. O oficial de justiça de Acari Inácio Barbosa da Silva, notificou Olavo no dia 21 de julho.


Olavo Lamartine não apareceu e o escrivão do cartório único de Acari José Freire Filho comunicou ao Juiz no dia 2 de agosto de 1943. Dr. Oscar Siqueira então solicita do escrivão se existem bens a inventariar em Acari ou em qualquer outra parte que estejam em nome de Octavio Lamartine de Faria. No dia 4 de agosto de 1943, o escrivão responde afirmando que “não consta seja o espólio do Dr. Octavio Lamartine, possuidor de qualquer imóvel, nem me consta que fosse o mesmo espólio possuidor de quaisquer bens a serem inventariados”.


Por fim, em conformidade com as informações prestadas pelo escrivão, o Juiz de Direito, manda que seja sobestado o processo “até que apareça a existência de um espólio a ser inventariado, era do dia 5 de agosto de 1943. O escrivão calculou as custas processuais em CR$ 115,40, e o processo é encerrado no dia 15 de setembro de 1943.


Na verdade, após o assassinato de Octavio Lamartine, a viúva d. Maria Dinorah Lamartine não retornou mais a Acari e fez doação de todos os seus móveis à família do administrador da fazenda Ingá, Sr. João Raphael Dantas, que assumiu a propriedade em um momento muito delicado para a família Lamartine, com Juvenal exilado, Octavio morto e os demais irmãos perseguidos.








Praça dos Janduís


Essa 'floresta' que costumavamos brincar, desbravar e se esconder, acredito que constituída de algarobas, era o lugar primitivo que serviu do atual  "Posto de Saúde" Dr. Odilon Guedes, construído em 1984 pelo  prefeito José Braz Filho. Este, indubitalvemente, primou por inúmeras construções de relevo para a cidade, v.g., a ponte nova, o CSU, o ginásio de esporte Jorácio Mamede Galvão, a rodoviária municipal, a escola Municipal Cantídia Auda Galvão, dentre outras que não recordo agora.  No livro ACARI - Fundação, história e desenvolvimento (Editora Pongetti - 1974), o autor Jayme da Nóbrega Santa Rosa defendeu que o nome desse lugar deveria chamar-se "Praça dos Janduís" (pág. 113). E depois, numa das notas de rodapé (pág. 117), explica assim: "Mantém-se a sugestão de dar nome de Praça dos Janduís ao logradouro onde com toda a evidência começou a edificar-se o aglomerado que é hoje o Acari. Representa homenagem aos nossos intrépidos antepassados da selva nativa" (Ipsis litteris).










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