CAPÍTULO II - 1934/1944
Octávio Lamartine teve sua vida ceifada pela mais grotesca covardia da política. Apesar da placa aludir que ele foi morto pela pseudo polícia do Estado (...), em verdade eram celerados liberados da Casa de Detenção do Recife. Importante enfatizar que as forças políticas contrárias ao Governo de Juvenal Lamartine deram às tenebrosas ordens. Era o império da Revolução de 1930 conforme comando do interventor Mário Câmara e do sindicalista Café Filho, sob a tutela do presidente Getúlio Vargas. Contado em diversas oportunidades, por ‘Seu Zé Rafael’ (filho de JOÃO RAFAEL DANTAS) sobre o assassinato ocorrido no município de Acari/RN, precisamente na Fazenda Ingá, filho do ex-governador Juvenal Lamartine. Ele foi morto por Oscar Martins Rangel. Atribuíram como mentores do crime forças políticas contra Juvenal Lamartine. O então prefeito do Acari/RN foi alertado do perigo que corria e que devia se ausentar da cidade o quanto antes. Refutada a ideia de forma veemente pelo prefeito, insistiu este em permanecer na Fazenda Ingá. De posse do HABBEAS CORPUS acreditava ser suficiente para salvá-lo de toda ou qualquer infortúnio rompido. Ledo engano, chegou um caminhão carregado de 'jagunços' para interpelar o prefeito da cidade. Saiu à porta da casa da Fazenda com a filha JUREMA LAMARTINE ainda de colo abraçada ao pai. "Otávio! viemos te buscar!" Proferiu com agressividade o ex presidiário Oscar Rangel. "Não há necessidade para tanto, pois tenho um HABBEAS CORPUS que me garante a liberdade" Respondeu serenamente Octávio Lamartine.
SILVINA BEZERA, filha do Cel. SILVINO BEZERRA DE ARAÚJO GALVÃO. Genitora de Octávio Lamartine.
- "De Doidinho a Batalha de Itararé".
Um certo “soldado” chamado Luiz Gonzaga.
Durante sete décadas acreditou-se – porque assim foi oficialmente instituído – o fato de que um certo “soldado” chamado Luiz Gonzaga, pertencente à corporação da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, teria sido o único e grande herói da Inssurreição Comunista de 1935, que ocorreu em Natal, quando rebeldes do 21 º Batalhão de Caçadores, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros e pelo cabo Giocondo Alves Dias, aliançados com células do Partido Comunista do Brasil (na época PCB) e com organizações de esquerda da capital, dominaram a sede do batalhão e metralharam o quartel da PM, saindo vencedores, materializando assim o primeiro governo marxista-leninista das Américas, que durou exatamente 82 horas, do dia 23 ao dia 27/11/1935, para o qual foi constituída um Comitê Popular Revolucionário (CPR), composto pelos seguintes membros:
Quintino Clementino de Barros, 36 anos, sargento-músico do Exército – Secretário de Defesa;
Lauro Cortês Lago, 36 anos, funcionário público estadual – Secretário do Interior e Justiça;
José Macedo, 33 anos, Diretor dos Correios – Secretário de Finanças;
João Galvão, 33 anos, Secretário do Atheneu – Secretário de Viação;
José Praxedes, 36 anos, sapateiro – Secretário de Aprovisionamento.
Geralmente, quando se fala na Intentona Comunista de 35, relembra-se logo as quarteladas do Recife e do Rio de Janeiro, e incluí-se aí, erroneamente, Natal como parte integrante dessas quarteladas. É bem verdade que os movimentos comunistas deflagrados no Recife e no Rio de Janeiro, foram realmente intentonas, pois lá, nessas capitais, o movimento não tomou corpo e forma, como ocorreu em Natal. Na capital potiguar houve realmente uma inssurreição, onde progrediu para o enfrentamento bélico, culminando com a vitória dos inssurretos e a instalação de um governo provisório, mesmo que esse tenha durado tão somente 82 horas. Mas, é uma pena que alguns autores não queiram aceitar essa verdade histórica e ainda prossigam subvertendo a ordem natural do desenrolar dos nossos fatos históricos. Assim conta a história permitida ... Após ás 14h00 do dia 24 de novembro, quando a resistência do Quartel da Polícia, representada por dois oficiais e quarenta e seis soldados, sem munição, é obrigada a abandonar o front pelos fundos do prédio, numa passagem que dava para o Rio Potengí, retirada esta comandada pelos majores Luís Júlio e Pinto Soares, um inssurreto defronta-se com um “soldado” agachado, ás margens do Rio, portando um fuzil. Quando o tal “soldado” avistou os inssurretos, levantou-se rapidamente, aidna segurando a arma, quando foi alvejado por um único e certeiro tiro, tombando sem vida. Sobre isso escreveu Home Costa:...No combate do quartel da polícia militar foram feridos os sargentos Celso Anselmo Pinheiro e Celso Dantas Neto, o cabo Severino mendes e os soldados Antônio Jósimo e Antônio Gervásio de Medeiros – todos com ferimentos leves. Houve um morto: Luiz Gonzaga”. O autor do comentário declina as graduações dos militares feridos no combate, não referindo-se a Luiz Gonzaga como soldado ou integrante da defesa do quartel. Sobre a conturbada figura de Luiz Gonzaga, muita polêmica foi travada. Agora, á luz dos acontecimentos históricos, sem paixões e sem ideologias, procuramos pesquisar a vida do tal “soldado” na bibliografia disponível, chegando á conclusão de que, realmente, Luiz Gonzaga nunca pertenceu aos quadros sda Polícia Militar do Rio Grande do Norte, pelo menos até novembro de 1935. Era um débil mental, natural de Santana do Matos, que residia nas imediações do quartel, e que costumeiramente vivia a fazer mandados da soldadesca, recebendo deles gorros, gandolas, calças e botas usadas, com o que passou a se trajar, por força das necessidades. Era comensal do quartel da polícia. Sobre isso escreveu o desembargador João Maria Furtado: (...) sempre afirmaram que, realmente morreu nas proximidades do quartel da polícia um pobre demente que vivia perambulando pelas ruas de Natal, ms nunca fora soldado da polícia militar (...) Sizenando Figueira, então militante do Partido Comunista, que participou ativamente do movimento de novembro de 1935, disse, referindo-se a Luiz Gonzaga: “(...) ele não era nem herói nem militar na época. Era apenas um débil mental (...). Afirma o Sr. Sizenando Figueira que foi quem matou o tal “soldado”, “em legítima defesa”, adiantou. Passado o período do movimento, resolveu então o comando da Polícia Militar alistar, com data retroativa, o tal “Luiz Gonzaga”, única vítima fatal do movimento, como bem disse o desembargador João Maria Furtado: “Entretanto, o major Luiz Júlio resolveu alistar depois de morto Luiz Gonzaga como soldado da polícia que, assim, teve uma morte de herói(...) Segundo um artigo do jornalista Luiz Gonzaga Cortez, intitulado “O Comunismo e as Lutas Políticas no Rio Grande do Norte na Década de 30”, publicado no Jornal “O Poti”, edição de 29/09/1985, diz: (...) Houve uma adulteração no relatório da inssurreição, no qual Luiz Gonzaga teria sido inscrito como soldado depois dos acontecimentos (...) O escritor Manuel Rodrigues de Melo, integralista á época dos acontecimentos, comentou em entrevista: Muitos anos depois é que começaram a falar nesse soldado...” No livro “Meu Depoimento”, publicado em 1937, o Dr. João Medeiros Filho exibe anexo um relatório do delegado auxiliar Enock Garcia, que referindo-se ás vítimas do movimento, não aparece o nome de Luiz Gonzaga. O professor Homero Costa prossegue: “No dia 30 de novembro de 1935, portanto, logo após a derrota da inssurreição, o governador Rafael Fernandes visita os quartéis do 21º BC e da Polícia Militar. Acompanhado pela imprensa, e não faz qualquer referência á morte de soldado da polícia militar. No dia 5 de dezembro de 1935, o coronel Otaviano Pinto Soares, comandante do 21º BC, em longa entevista que concedeu ao jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, detalha sua participação e não faz também qualquer referência á morte de soldado da polícia militar. No entanto, em documento datado de 7 de janeiro de 1936, o governador do estado envia ao comandante da 7ª Região Militar o relatório do comandante da Polícia Militar (anexos 2, 3 e 4) datado de 23 de dezembro de 1935, em que diz: “... Após a retirada do quartel foi atingido e morto por certeiros tiros do inimigo o soldado Luiz Gonzaga, que na metralhadora pesada se salientara como um bravo(...). O fato mais curioso é que o jornal oficial do governo do estado “A República” publica diversas matérias nos dias subseqüentes á insurreição e não faz qualquer referência á morte de soldado da polícia militar, nem que existisse tal soldado manobrando essa tal “metralhadora pesada”. Em 1980, o Dr. João Medeiros Filho, em outro livro - “82 Horas de Subversão” - ao transcrever o mesmo relatório, acrescenta, como primeiro da lista, o “soldado” Luiz Gonzaga, do batalhão Policial. Finalmente, no dia 12 de outubro de 1985, o jornal publica uma carta do Dr. João Medeiros Filho, chefe de polícia á época, autor do livro anteriormente citado, afirmando o mesmo que, “reconhece ter adulterado o relatório, mas que o fez de boa fé”. Esta foi a prova maior de que a farsa foi realmente feita, resistindo até os nossos dias, onde o “soldado” Luiz Gonzaga nasceu por “obra e graça” do major Luiz Júlio, então comandante da Polícia Militar do RN, e que foi, posteriormente, transformado em mártir e herói da “Intentona Comunista de 1935”, Infelizmente, aquela era a hora de se abricar “heróis”, e o herói foi feito. Hoje, Luiz Gonzaga, o “soldado” mártir, é reverenciado como patrono da PM, tendo inclusive uma medalha de mérito da corporação que leva o seu nome e um mausoléu no cemitério do alecrim. “O feitichismo político exigia manipansos de farda. Escolheram-no para novo ídolo”.
A Batalha de Itararé
Em 1930, Getúlio Vargas e seus tenentes necessitavam urgentemente de um motivo incisivo para deflagrar a Revolução. O assassinato á bala do seu candidato a vice-presidente pela Aliança Liberal, João Pessoa, na Confeitaria Glória, no Recife, pelas mãos do advogado João Dantas, serviu de estopim e motivo para a deflagração, mesmo se sabendo hoje que o assassinato de João Pessoa tenha se dado por motivos meramente passionais e nunca políticos, que envolveu Anaíde Beiriz, namorada de João Dantas e a publicação de cartas amorosas pela imprensa.
Getúlio Vargas precisava urgentemente de um objeto de culto para impressionar s sugestionar o povo. O corpo de João Pessoa foi esse objeto sugestivo, tanto que, andaram com seu esquife, “país acima, país abaixo”, servindo de bandeira ao movimento dos tenentes.
Mais tarde, em Natal...
Assim como Luiz Gonzaga de Souza ou “doidinho”, como era mais conhecido em Natal, foi feito herói e mártir da Inssurreição Comunista de 1935, o ex-Governador Dinarte de Medeiros Mariz também o foi. Não foi Dinarte um herói fabricado por uma corporação ou sistema, mas foi um herói forjado nele próprio e por ele próprio, diante do aproveitamento das circunstâncias, e que também foi instituído no consciente coletivo do povo do Rio Grande do Norte, principalmente no povo do Seridó, de onde era natural e exercia as suas atividades comerciais e políticas.
É sabido por toda a população do estado, que o político e empresário do ramo de algodão Dinarte Mariz, natural de Serra Negra do Norte, mas com domicílio em Caicó, município no qual mantinha o seu grande reduto eleitoral, que naquele fim de tarde de 26 de novrmbro de 1935, havia ele pegado em armas e tiroteado contra comunistas em retirada da capital, na Serra do Doutor. Esse episódio da história política do Rio Grande do Norte foi passado para as gerações futuras sob diversos prismas. Da parte do ex-senador e do seu sistema político, a verdade consta que Dinarte realmente foi o grande contra-revolucionário da Inssurreição, entretanto, para os seus opositores ou mesmo para alguns pesquisadores e até mesmo para integralistas e comunistas que participaram ativamente do movimento e da ofensiva na Serra do Doutor, tudo não passou de um jogo de cena inteligente e eficiente. Porém, os fatos não foram relatados pela mídia da época como realmente aconteceram. Leiamos o que diz o escritor Homero Costa, sobre a inicial da questão:
“... no dia 26 de novembro de 1935, praticamente 41 municípios do estado estavam ocupados pelos rebeldes. À tarde, uma parte da tropa que estava na cidade de Santa Cruz se desloca pra a vizinha cidade de Currais Novos. No caminho, numa serra conhecida como “Serra do Doutor”, são surpreendidos por uma grande fuzilaria. Alguns fazendeiros, tendo á frente o 'coronel' Dinarte Mariz, que residia na cidade de Caicó, já informados sobre as ocorrências em Natal e o deslocamento de tropas para o interior do estado, se articulam para resistir. Vão a Campina Grande, na Paraíba, e conseguem, além de armas, aregimentar um considerável contingente (...) No caminho, sabem da ocupação de Santa Cruz e ficam entrincheirados na Serra do Doutor. Com a passagem de dois caminhões que saíam de Santa Cruz em direção a Currais Novos, abrem fogo, pegando-os de surpresa, e impõem a primeira derrota pelas armas aos inssurretos”.
Sobre os fatos ocorridos na Serra do Doutor, naquele fim de tarde do dia 26 de novembro de 1935, há muitas versões, relatadas por jornalistas, militares, sitiantes da região, integralistas, comunistas, etc., cada um, no caso dos sistemas políticos, “puxando a brasa para as suas sardinhas”, a fim de colherem dividendos para si e para os seus sistemas. Mas á luz dos acontecimentos históricos e da verdade dos fatos, podemos afirmar que, Dinarte Mariz, muito embora tenha participado ativamente da resistência aos inssurretos e ao próprio movimento de novembro de 1935, não encontrava-se presente, especificamente, á tardinha da quarta feira, dia 26 de novembro de 1935, na Serra do Doutor, quando se deu o confronto entre comunistas e os sertanejos do Seridó. Sobre isso, atesta o jornalista Luiz Gonzaga Cortez, escrevendo sobre entrevista que lhe foi concedida pelo senhor Manoel Lúcio de Macedo Filho, um dos chefes integralistas do Acari, entre 1933 e 1937:
“A batalha da Serra do Doutor foi travada entre comunistas que viajavam em dois caminhões e os integralistas aliciados pelo padre Walfredo Gurgel, que também era integralista e vigário de Acari. Este, com medo, não foi até a serra, viajando para Santa Luzia, no vizinho estado da Paraíba. Quanto a Dinarte Mariz, não participou de qualquer combate, só aparecendo na serra por volta das 19h00, quando tudo havia acabado”.
A Sra. Otávia Bezerra Dantas, esposa do Sr. Manoel Lúcio, dá também a sua versão á luz dos fatos, como contemporânea e partícipe do movimento:
“Depois da debandada geral, sem nenhum integralista ferido, Dinarte apareceu. Padre Walfredo e o seu motorista José Francisco Lúcio, apareceram no outro dia, de manhã, num chevrolet. Dias depois, andaram dizendo que Dinarte foi o 'general' da Serra do Doutor. Eu respondia na hora: “É mentira. Foram os doze “bobos” de carnaúba que fizeram as bombas e estragou a fuga dos comunistas”.
As versões do Sr. Manoel Lúcio e da Sra. Otávia Bezerra Dantas são depois confirmadas pelo próprio Enock Garcia (delegado auxiliar de Natal, na época) que, em depoimento prestado em 1987, confirma que tanto ele como Dinarte Mariz só chegaram ao local, com 400 homens, na madrugada de quarta feira, 26/11 – apresentando outra versão de horário, mas que nada infere na afirmação do casal integralista de Carnaúba dos Dantas.
Esses dois fatos aqui apresentados, falam por toda a convicção ideológica de uma época, em que a bandeira do anticomunismo serviu de estandarte para emoldurar campanhas políticas e fazer sobressair homens do quase anonimato para as lides do poder e da glória. Naquela época – como ainda hoje reclama-se – necessitava-se de “heróis” e de “mártires”. O poder estadual (e mesmo federal) carecia de que o capitalismo, sustentáculo e esteio da “livre iniciativa” e da manutenção dos grandes latifúndios – eleitorais e agrários – fosse mantido, e que o comunismo ateu, sílbolo do materialismo histórico e dialético, jamais procurasse sair do campo das idéias filosóficas para a prática, como coforeu naquels 82 horas em que Natal, principalmente, sentiu o gosto de haver engendrado, pela caminho da luta armada, o primeiro governo marxista-leninita das Américas, e legado para a posteridade os muitos exemplos e as muitas lições retiradas daquele fatídico episódio. Mas, é o próprio Marx que resume: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que imposta é modificá-lo”.
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No ano de 1935, o interventor Mário Câmara foi buscar em Recife o criminoso Oscar Matheus Rangel que estava preso na Casa de Detenção. O escopo era perseguir e matar adversários políticos. E assim fez.
Da esquerda para direita: José Galdino de Souza. José Albuquerque dos Santos. Ex presidiário Oscar Matheus Rangel, na época em que eram procurados em todo Brasil pelo covarde homicídio do prefeito de Acari, o engenheiro agrônomo Octávio Lamartine de Faria, filho do ex-governador Juvenal Lamartine. O fato ocorreu em 13 de fevereiro de 1935, por volta das quatro horas da tarde, na fazenda Ingá. Consta que Rangel atirou com uma pistola “Mauser” contra o prefeito da cidade. Não houve qualquer reação ou afronta. Ele simplesmente foi assassinado! Os criminosos retornaram ao caminhão, gritavam e ovacionava o nome do interventor Mário Câmara. Depois seguiram para Caicó, onde estavam aquartelados.
O escritor Otacílio Cardoso prestou depoimento sobre a revolução de 35 em Natal. Na íntegra, eis o seu relato que propiciou a manchete desta reportagem sobre o comunismo no RN.
“Quando da chamada intentona comunista de novembro de 1935 andava aqui o degas nos seus fagueiros 16 anos. Dezesseis anos daquele tempo, no que tange conhecimentos e esperteza, correspondem a uns 12 de hoje - e olhe lá!
Residia eu então na casa pastoral da Igreja Presbiteriana - uma pequena construção imprensada entre a Igreja e a prefeitura. Morava em companhia de duas irmãs mais velhas, das quais uma sobrevive. E foi esta justamente, que se encontrava em casa, naquela memorável noite. A outra logo depois da ceia, se deslocara até a casa de minha tia Ana, na Praça André de Albuquerque, 578 (onde é hoje uma lanchonete) a fim de saber como ia passando o nosso tio Gedeão, acometido por um derrame alguns dias antes.
Naquele tempo eu tinha uma paixão avassaladora pelo romance policial, devorava um atrás do outro, volumes de Conan Coyle, Agata Christie, Edgar Wallace, S.S. Van Dine... Justamente naquele dia (não havia ainda aqui a semana inglesa), eu adquirira no sebo do João Nicodemos, uma novela de Edgar Wallace, e tão logo terminei o café, “agarrei” a ler. Ao acender um “Yolanda” verifiquei, com desagrado, que apenas dois outros me restavam no maço. Iria um pouco mais renovar o estoque no Bar Teutônia, um café que existia então defronte da Prefeitura, bem pertinho, portanto. Mas a leitura era de tal modo absorvente, que eu ia passando de um capítulo a outro, e deixando o cigarro pra depois.
Seriam aproximadamente 7h - talvez um pouco mais - quando minha irmã chamou-me a atenção para um alarido qualquer ao lado do quartel do 21 BC, que era ali onde é hoje o Colégio Churchill. Só então emergi do “fog” londrino. Tão absorvido estava na trama do romance que não ouvira absolutamente nada...
Vou dar uma olhada - disse minha irmã dirigindo-se para o oitão da Igreja. Havia, nos fundos, uma saída para a Praça João Tibúrcio.
Aí começou o tiroteio. Minha irmã tornou às pressas e por pouco não corta a garganta num arame de estender roupa. Primeira vítima da rebordosa apenas um arranhão que a tintura de iodo logo sarou.
O tiroteio era cerrado, as balas por vezes ricocheteavam nos postes, sibilavam... Que diabo disto seria aquilo? Eu não sabia nem imaginava o que pudesse ser. Depois da posse do Dr. Rafael Fernandes, menos de um mês antes, tudo parecia tão calmo...
Fechada a casa, ficamos, minha irmã e eu, a ouvir os disparos. Um tanto apreensivos, evidentemente. E ouvimo-los pela noite a dentro, pois a verdade é que, não só ruído dos disparos como a tensão nervosa não permitiam que nos entregássemos ao sono. Dei logo conta dos dois cigarros - e me arrependi pra burro. Sabe lá o que seria para um fumante passar uma noite sem pescar uma simples traíra, a escutar tiros e mais tiros, sem ter um cigarro para abrandar a tensão?
Ao amanhecer do domingo o tiroteio já não tinha a mesma intensidade, era, ao contrário, esparsos, pelo menos aqueles disparados nas proximidades. Mas lá pros lados da Praça André, a coisa continuava.
Ansioso por saber o que se passava, enchi-me de coragem, abri a porta e fui até o portão. Nessa ocasião vi, subindo a pé a rua Junqueira Aires, uma pessoa minha conhecida: era o dentista João Abdon, cujo gabinete dentário ficava no mesmo prédio da “A Razão”, jornal do qual fora eu tipógrafo até recentemente.
Que é que está havendo doutor?
Sem querer preguei-lhe um susto, decerto ignorava que eu morasse ali.
É comunismo, menino. E o melhor que você faz é ir para dentro!
Transmiti a irmã a informação. E passamos a cogitar sobre o que deveríamos fazer, pois, na época, “comíamos de marmita”, como se diz, e a casa, além de uns poucos pães e de algumas frutas não dispunha de mais nada no que tange a alimentos. A solução era irmos para a casa do tio Gedeão. Mas... e as balas? Não havia, contudo, outra saída, tínhamos que ir para a casa dos tios.
Ao tentarmos fazê-lo, porém deparamos com um obstáculo. Dois jovens soldados (ou pelo menos com a farda do exército), cada qual com um fuzil, estavam postados - um na esquina da Prefeitura, outro na do Atheneu (O Atheneu era onde ficam atualmente os fundos da Secretaria de Finanças do Município). Achavam os rapazes que não era aconselhável sairmos, e muito menos naquela direção.
Ali é que o fumo tá forte... disse um deles.
Minha irmã argumentou, expondo-lhes a nossa situação. Mostraram-se compreensivos. Procuraram até orientar-nos no trajeto.
Vão indo aí por essa rua da farmácia, “se cosendo” na parede...
A ‘Farmácia Maia’ antiga “Torres” era na esquina onde existe hoje a “Paraguassu Festas”.
Aproveitei para perguntar:
O que é que estar havendo mesmo?
Sei não... Estamos apenas cumprindo ordens.
Saímos, seguindo os conselhos do jovem. É sempre bom seguir os conselhos dados por quem tem um pau-de-fogo na mão.
A fuzilaria continuava. Às vezes abrandava um pouco, para recrudescer em seguida. Pelo menos, de munição, parecia haver bom estoque.
Felizmente fomos encontrar tudo em ordem na casa dos tios. Meus três primos, rapazes, estavam em casa quando começara a inana, e lá permaneceram, está visto. Conheci nesta ocasião um rapaz que se tornaria posteriormente meu amigo - Lídio Madureira -, que fora surpreendido pelo tiroteio quando, vindo do Baldo, se dirigia para casa na Gonçalves Dias. Mostrava-se excessivamente nervoso, preocupado com a mãe, dona Nhazinha. Aliás, todos se mostravam naturalmente preocupados e perplexos, e também apreensivos com o que corria lá fora, que ninguém - nós, pelos menos - sabia ao certo o que diabo fosse. (O Dr. Abdon falara em comunismo, mas o número de comunista em Natal daria para fazer uma revolução? Mesmo com a nossa inexperiência achávamos impossível isso). O meu tio, numa preguiçosa, olhava para um e para outro sem conseguir articular uma palavra, coitado. Uma preocupação, pelo menos fora afastada: havia em casa o bastante para as refeições do dia. “Aquilo” não ia durar muito, não era possível. Logo mais cessaria e tudo entraria nos eixos. Era o que pensávamos.
Umas 3 casas depois da 578 ficava a de seu Chico Teófilo, que alguns chamavam a “casa dos 3 anões” (tinha ele 3 filhos anões: Ester, Oscar e Lulu). A casa ficava na esquina da rua João da Mata, onde é hoje uma farmácia. Na calçada, um tanto elevado na extremidade fora postada uma metralhadora. (Ouvi dizer que se tratava duma “metralhadora pesada”, não sei; graças a Deus nunca tive necessidade de entender dessas coisas). A tal metralhadora, apontada para o quartel da Polícia funcionava com eficiência, de quando em quando ouvíamo-lhe o ta-ra-ta-ta duma rajada. (Contam que, a certa altura a um recrudescimento do tiroteio, o Oscar aconselhara ao irmão: - Mano, te abaixa! Ao que Lulu, do alto dos seus setenta e pouco centímetros, retrucara: - Besteira, Oscar. Eu já sou baixo por natureza...!
O certo é que as horas iam se escoando – horas de apreensões para quem não tinha a menor idéia do que significava aquele entrevero. Chegou a hora do almoço, e por pouca que tivesse sido a comida, teria dado de sobra. Quem, naquela situação, teria disposição para encher o bandulho? Nós, homens, vingavamo-nos no cigarro. (Meus primos costumavam comprar cigarros em pacotes – cigarros “ Lulu n.º 2”, produção local da Fábrica Vigilante).
Aí por volta das duas horas da tarde, talvez um pouco antes, o fogo cessou. E cessou mesmo por completo. Um dos primos, chegando à janela, soube por um soldado que viera pedir um pouco d´água, que a Polícia acabava de render-se.
Uma meia hora depois assisti à passagem, pela nossa porta, provavelmente em direção ao quartel do 21, dos integrantes da PM, que haviam resistido até há pouco. Nunca esqueci o espetáculo. Impressionante. Parecia cena de um filme. Um reduzido grupo de homens cabisbaixo, suados, abatidos dentro das fardas sujas, os rostos macilentos mostrando sinais evidentes de cansaço ( Identifiquei, entre eles, alguns componentes da banda de música, que eu conhecera dois anos atrás, quando residira nas proximidades do quartel ). Deveriam estar mesmo exaustos, pois haviam passado a noite inteira e toda a manhã manobrando os seus fuzis, sustentando fogo ininterrupto. E agora ali iam, escoltados, naturalmente cheios de apreensão quanto ao que lhes poderia estar reservado. E deveriam estar, além do mais, famintos. No intimo fiz votos para que nada de mal lhes acontecesse. E creio que não passaram por maiores vexames, apenas ficaram detidos por 2 ou 3 dias.
Cessado o fogo, as ruas foram voltando devagarinho a ter a presença de pessoas, não tantas como de costume, está visto. Bom, tem gente que é exagerada em tudo, até no medo.
Em companhia de dois dos primos, saí para uma voltinha e naturalmente a procura de notícias. Pouca gente nas ruas, evidentemente, mas o bastante para que o jornal “Bocório” fosse dando suas edições extras... Que o movimento estava triunfante, apenas em Santa Catarina e Paraná os inimigos do povo ainda estrebuchavam... Que o Cavaleiro da Esperança assumira o poder... (As “manchetes” eram desse tipo ). A certa altura escutamos um alarido, era um grupo de rapazes a pular, gritando que haviam tomado Panelas... (alguns deles, por gaiatice, traziam na extremidade de uma vara, uma panela de barro...) parecia mais uma troça carnavalesca. No dia em que o brasileiro levar alguma coisa a sério o mundo se acaba.
Na segunda-feira, pela manhã, fui a imprensa oficial, onde a poucos dias começara a trabalhar. Ali encontrei a maior parte dos colegas, mas nenhum sabia mais do que o outro. Ninguém queria se comprometer dando com a língua nos dentes.
Dizem que tiraram um jornal... – disse, já não me lembro quem. (Tirar queria dizer fazer, imprimir).
Pouco depois recebemos ordem para ir embora, até que a situação se normalizasse. Claro que ninguém esperou que a ordem fosse repetida.
A propósito do jornal, “A Liberdade”, foi o mesmo composto e impresso nas oficinas de “A República”, e não na “A Ordem”, como já chegou a ser dito.
(Meses depois, descobri em cima de um armário, na Seção de Avulsos onde trabalhava, uns trezentos ou mais exemplares da “Liberdade”. Procurei obter um, mas o chefe negou. Um dia, aproveitando a ausência do chefe, surrupiei um exemplar. Depois me arrependi. Mas me arrependi foi de não ter surrupiado uns dez...).
Agora já não tenho certeza se foi nesse dia ou no imediato, terça, que fomos ao Hospital Juvino Barreto visitar um conhecido nosso – Joaquim Barbosa – soldado da Polícia, que fora ferido no assédio ao quartel. O ferimento, felizmente, não era grave, o Joaquim ficou apenas com um braço ligeiramente defeituoso e foi reformado como cabo. Mais tarde foi trabalhar na B. Naval, de onde já deve ter-se aposentado.
Quando deixávamos o Hospital, vinham trazendo numa padiola um rapaz, vítima de peixeirada lá pras bandas da Redinha. Conhecia-o de vista era filho do alfaiate Joca Lira. Integralista ardoroso, imprudentemente entrara a discutir com um adepto da revolução, que o ferira mortalmente. Outro que morreu entre o sábado e o domingo, atingido propositadamente por arma de fogo, foi o agente da Costeira, Otacílio Werneck. Morava numa casa nas proximidades da igreja do Bom Jesus. Chegara ao portão, para saber o que estava ocorrendo, quando o alvejaram. Conheci esse meu xará – como ao outro – apenas de vista. De civis mortos, só me recordo destes.
Parece-me que foi também na segunda-feira que os bondes da Força e Luz passaram a cobrar pela metade o preço das passagens, ou seja, um tostão (100 réis). É que houve, na calçada do quartel do 21, distribuição de gêneros ( feijão, charque e farinha ) aos pobres.
Quanto aos exemplares de “Liberdade” de que já falei, não sei que destino lhes deram, creio que foram destruídos.
...E eis aí, meu caro Cortez, o meu modesto depoimento. Espremendo não dá quase nada – mas eu lhe avisei que tinha muito pouco para contar.
Uns sete anos depois, em Aracaju fui apresentado a um cidadão.
- Ah, o senhor é da terra do comunismo, hein?
Tentei esclarecer que Natal não era propriamente terra do comunismo, que houvera uma revolução de caráter comunista, é certo, mas engrossada pelos adversários do governo recém-empossado – e coisa e tal.
Não venha me dizer que aquilo ali não é um ninho de comunistas. Se chegaram até a fazer passeata de freiras nuas... foi ou não foi?
Desmenti a balela. O homem insistia:
Mas se eu li nos jornais!
Resolvi sair pela tangente da ironia misturada com a galhofa:
Bem parece que cogitaram disso, mas o número de freiras lá era muito reduzido, e como não fosse possível mandar buscar as de Aracaju, desistiram da idéia.
O olhar que o sujeito botou pra mim era como se dissesse:
Vá ver que você é um “deles”...
A revolução praticamente terminou na quarta-feira, à semelhança do carnaval. Foi quando apareceu, sobrevoando a cidade, um avião se não me engano da Marinha. ( O M. da Aeronáutica seria criado 5 anos mais tarde). Aí houve a debandada, o salve-se quem puder.
Depois, foi a repressão. E aí surgiram as delações, as denúncias abjetas, asquerosas. Alguns, moralmente, se engrandeceram. Outros, ao contrário, se apequenaram no afã deletério e torpe de destruir desafetos ou simples adversários políticos. Mas isso já são outros quinhentos.





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