CAPÍTULO I - 1924/1934

 



Em 1679, chegavam ao Seridó, vasta região do Rio Grande do Rio Grande do Norte, os primeiros colonizadores vindos de Goiana e Igarassu, cidades pernambucanas. Logo perceberam que a terra era perfeitamente favorável à pecuária. Mas estava claro que pelas características da região, o algodão seria, posteriormente, a principal fonte de riqueza. E foi com base nisso que, na Câmara Federal, o parlamentar seridoense (não identificado) propôs, em 1922, a fundação de uma estação experimental de algodão fibra longa (mocó). Aceita sua proposta, a Estação Experimental foi criada pela portaria ministerial de 14.04.1924. O local escolhido foi a Fazenda Bulhões, município de Acari, passando a funcionar em 24.01.1925, em caráter provisório, uma vez que, posteriormente, ficaria submersa com as águas do açude Gargalheiras. O primeiro agrônomo foi o jovem Octávio Lamartine, formado na cidade de Lavras (MG) e graduado nos E.U.A., filho de Juvenal Lamartine. Nesta época, Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros já era governador e acompanhava todos os passos de seu vitorioso projeto. Não contente por ver suas instalações precárias e reclamando soluções, 2m 1929, ele, já Senador, resolveu transferi-la para a cidade de CRUZETA, distrito de Acari, onde a Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca (IFOCS) construía um açude de porte médio. Para isso contou com a colaboração dos Ministérios da Agricultura, Indústria e Comércio, através de um crédito de 100.000$000 (cem contos de réis). O governo do Estado também colaborou, em 1934, dando os terrenos necessários, em uma área de 472 hectares, sendo 110 de várzea e 362 de tabuleiro, fazendas que pertenciam aos senhores Antônio Praxedes de Medeiros e Pedro Cipriano Dantas. De início, foram construídas três casas, um escritório e um posto de meteorologia. Uma das três casas era destinada aos hóspedes pesquisadores e as demais, ao agrônomo chefe e seus auxiliares. É interessante observar que o escritório foi construído, aproveitando-se o material que sobrava das casas. O senhor Francisco Raimundo de Araújo trouxera as primeiras sementes da planta a ser cultivada na nova repartição. Eram sementes do algodoeiro de tipo (mocó). Em 1930, por questões políticas, o Dr. Octávio Lamartine (primeiro chefe) foi demitido, passando a chefia para o Dr Ursulino Veloso. Seguiram-se Dr. Josué Pimentel, Dr. João Batista Coortes, Dr. Antídio Guerra, Dr. Sílvio Bezerra de Melo, Dr. Fernando Melo do Nascimento, Dr. Alberto Rego, Dr. Válter Cortez e finalmente, Dr. Pedro Pires. Muitos nomes ilustraram a chefia da Estação, inclusive alguns cruzetenses. Em 1936, Dr. José Augusto (então deputado federal), liberou verbas par a construção de residências para os trabalhadores dentro da própria área do campo de experimento, visto que a vila de Cruzeta distava mais de um quilômetro, evitando-se assim uma longa caminhada.



Antiga Usina
O sistema mercantil se processava da seguinte forma: feita a colheita, o algodão ia para as  usinas (onde atualmente são os prédios da Casa de Cultura Popular, Facções e depósito da Prefeitura, localizado na Rua João XXIII, antiga Rua da Usina) onde a semente era separada da pluma. A semente ficava para experimentos e a pluma era leiloada entre os compradores.




Outros produtos hortigranjeiros cultivados em terra não concedidos a  funcionários eram vendidos na própria repartição. Quanto à irrigação, era feita através de um canal de pedras (ainda existente), partia do açude público de Cruzeta e se estendia até a área da Estação Experimental. Ainda na administração de Dr. Fernando fundou-se uma escola e a primeira professora foi à senhorita Angelita Brito. Em 1875, a Estação Experimental do Seridó foi completamente desativada. Suas terras passaram parte para a EMBRAPA e parte para o DNOCS. As usinas de beneficiamento de algodão se fecharam. As casas dos funcionários foram quase todas demolidas e o material doado. Os funcionários se transferiram para outras repartições federais e os mais velhos se aposentaram. Desde modo, chegou ao fim o sonho do Dr. José Augusto, e nosso algodão, produto que desde os tempos coloniais caracterizou o nosso Seridó. Não é preciso pensar duas vezes para concluir o que representou o fechamento da Estação Experimental do Seridó, no município de Cruzeta (RN): reflexo do subdesenvolvimento e agressão à memória do Dr. José augusto Bezerra de Medeiros. Não foi só o Bicudo o culpado por este fim, mas os muitos desvios de verbas, de mão de obras e de posse particular de diversos chefes que por ali passaram.

(FONTE: O Seridó na Memória do seu Povo, ADAUTO GUERRA).

A partir daí, sucederam-se vários fatores que, juntos, provocaram a declínio das atividades ligadas à economia algodoeira no país e no Estado, porém acentuadamente no Seridó: o aparecimento das fibras sintéticas, a ocorrência de uma sequência de períodos de seca, as altas taxas de juros e a correção monetária incidentes nos contratos de empréstimo rural e, finalmente, o aparecimento da praga do bicudo. O bicudo é frequentemente evocado como o pivô da crise, entretanto ele foi tão somente mais um dos problemas que se somaram e ocasionaram essa história.  Nas duas últimas décadas do século passado, o cultivo de "pés de algodão" mocó, típico e natural da região, sofreu um grande declínio e foi quase que totalmente abandonado pelos produtores locais. No ano de 2000, o cultivo de algodão arbóreo no Rio Grande do Norte ocupara apenas 9.642 hectares, dos quais 8.852 na Região do Seridó. Se compararmos com os anos 1960, quando a cotonicultura se espalhava por 550.000 hectares, ver-se o tamanho de seu encolhimento.  Isso resultou na transformação das terras, antes ocupadas por algodoais, em pastagem para o gado e, depois, em capoeiras e "mata rala", num processo que tem facilitado a desertificação da região do Seridó. O efeito social, paralelo, foi a urbanização da população; a migração de grande parcela de população da zona rural para as cidades.  A consequência foi que a agricultura da região, hoje preponderantemente voltada para a produção de milho e feijão, ficou restrita a pequenos sítios em áreas de vazante (terreno temporariamente alagado pelas enchentes dos rios) e tabuleiro (terreno pouco elevado, arenoso e de vegetação rasteira). A cotonicultura do Seridó, outrora exuberante, foi desestruturada, quase que eliminada, provocando à bancarrota de todos os outros setores envolvidos na cadeia produtiva do algodão: os comerciantes intermediários, maquinistas, beneficiadores e indústria de óleo. 





A Revolta de 1930 foi um mortífero movimento armado, ausente de bravura, sem brios, liderado por Getúlio Vargas culminando com o golpe de estado de 1930. Neste foi deposto o então presidente da república Washinton Luís em 24 de outubro de 1930, impedindo assim  a posse do presidente eleito democraticamente Júlio  Prestes de AlbuquerquePara entender um pouco mais, se faz necessário o arremate à data de dia 26 de julho de 1930, onde o então presidente da Paraíba, João Pessoa, foi vingado por João Dantas  na capital do Pernambuco, por questões de ordem pessoal. João Duarte Dantas, cuja família era inimiga política de João Pessoa, tivera seu escritório de advocacia violado e saqueado. Sendo arrombado o cofre onde se encontravam cartas e poemas de amor a uma escritora local, que foram divulgadas pelo então governo da província. A correspondência, de per si, foi publicada no jornal oficial do governo estadual, A União.  Foi um escândalo.


 

No dia 26 de julho, quando João Pessoa estava com seus lacaios na Confeitaria Glória, em Recife, João Dantas vingou-se: acompanhado de um cunhado, disparou dois tiros contra o peito do presidente da Paraíba, dizendo: "João Pessoa!" Retrucando o interlocutor: "Sou eu, por que???" - "Sou, João Dantas, a quem tanto humilhaste e maltrataste". Foi encarcerado na Casa de Detenção do Recife, onde foi espancado, torturado e morto. João Dantas dissera que matara João Pessoa para defender sua honra. "Oficialmente", suicidou-se. Anayde Beiriz foi encontrada morta em 22 de outubro, por envenenamento, em Recife. Outro "suposto" suicídio. Apesar de totalmente desvinculado da eleição de Júlio Prestes, o episódio do assassinato de João Pessoa foi o estopim que deflagrou a mobilização armada dos partidários de Getúlio e da Aliança Liberal. O corpo de João Pessoa foi embarcado em navio, no Recife, em 31 de julho de 1930, para ser enterrado, em 18 de agosto, no Rio de Janeiro. Destarte, tanto em Recife, como no Rio de Janeiro, houve missas solenes e discursos inflamados, colocando a culpa no governo de Washington Luís pela morte de João Pessoa. No Recife ocorreu um enorme tiroteio.  O Largo de São Francisco, em São Paulo, no dia 17 de agosto, foi palco de um conflito de estudantes, quando homenageavam João Pessoa, houve tiros, um morto e 20 feridos. Houve intervenção da polícia e do exército. O Presidente da República não se defendia das acusações. Washington Luís fora avisado, repetidas vezes pelos seus assessores, de que havia um movimento subversivo em marcha visando derrubá-lo do poder. Washington Luís, porém, não tomou nenhuma medida preventiva para impedir a revolução. No Rio Grande do Norte, famílias ordeiras e trabalhadoras  foram diretamente atingidas pelas consequências incomensurável dessa  Revolução. Francisco Gonzaga Galvão, Enéas Pires Galvão, João Alfredo Pires de Albuquerque Galvão, Juvernal Lamartine de Faria e tantos foram perseguidos por não comungarem dos ideais totalitários da corja de Vargas. Neste ínterim,  não se deve olvidar do assassinato de Octávio Lamartine (filho do governador), tendo como Café Filho, um sindicalista local, seu real algoz, oportunamente culpando, a posteriori, à Polícia Militar pelo covarde ato. Em que pese de tantos outras mortes consideradas como "suicídios" ocorridas na cidade de Acari/RN, região do Seridó e Estado do Rio Grande do Norte.   Essa é uma história de um capítulo que não se fecha. Não se finda. Não termina. Mesmo com a tal "história oficial" dos governantes escondendo a verdade, os fatos exsurgem de forma natural e precisos. Não há como esconder! Pois segundo a própria escritura sagrada nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia. Pois não podemos deixar de falar de tudo quanto vimos e ouvimos! Que se testemunhe a verdade ... 


Em 03 de outubro de 1930, estoura a revolução no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco. No Nordeste os tenentes Juarez Távora, Juracy Magalhães e Jurandy Mamede mobilizam os batalhões e promovem as deposições dos governadores estaduais. A população apóia e adere ao movimento, mas não tem uma participação decisiva e organizada. Em 05 de outubro, o 29º Batalhão de Caçadores – batalhão do exército sediado na capital do RN, mas no momento destacado no interior da Paraíba - entra em Natal e depõe o governador Juvenal Lamartine, sem nenhuma resistência. No interior, os "coronéis" Dinarte Mariz – que participara desde o primeiro momento da fase "paraibana" da conspiração - pelo Seridó e Joaquim Saldanha, da região Apodi, aderem ao levante, mobilizando homens e armas. O desgaste político dos governantes da República Velha impede o apoio popular para uma possível resistência. Enquanto isso, no Estado, a Aliança Liberal se divide quanto à questão do poder: de um lado os cafeístas desejam empossar seu líder Café Filho na presidência provisória, enquanto os liberais da aliança apontavam o nome do desembargador Silvino Bezerra Neto, com o apoio dos oficiais que comandavam o levante. O impasse foi momentaneamente contornado com a instituição de uma junta militar que aguardava a chegada de Juarez Távora para definir a situação. Enquanto aguardava, a junta preocupou-se em consolidar a mudança de poder, remanejando o aparelho regional do Estado e garantindo a ordem  pública. Nesse sentido, fechou a Assembléia Legislativa e as câmaras municipais, nomeou novos diretores de serviço, extinguiu mandatos de prefeitos e intendentes, indicando outros titulares para os cargos. Afastou também oficiais do Regimento policial, substituindo por outros de sua confiança, enviou circulares às prefeituras do interior, recomendando garantia à vida e à propriedade dos adversários políticos. Dinarte Mariz supervisionou a implantação dessa nova ordem na região do Seridó, ganhando respeito e gratidão das chefias ligadas à Revolução. Enquanto isso, na capital, a chefia de polícia distribuiu víveres entre os estivadores e as camadas pobres. A junta fez nomeações das diversas correntes da Aliança Liberal, o próprio Café Filho, da corrente Cafeísta, do Liberal Juarez Távora. Em 12 de outubro de 1930, chega a Natal Juarez Távora acompanhado de José Américo e Irineu Joffily. Indicam Silvino Bezerra – irmão de José Augusto, mas dissidente das lideranças seridoenses - para a presidência. Entretanto, esse recusa, alegando parentesco com José Augusto e Juvenal Lamartine. Com esta recusa, é indicado João Lindolfo Câmara. Por este ver-se impossibilitado de chegar imediatamente, foi escolhido Irineu Joffily para exercer interinamente o cargo, com o apoio da corrente cafeísta. Joffily acreditava que deveriam exercer cargos pessoas alheia às facções políticas locais, alguém "estrangeiro", pois esta seria a condição necessária para as diretrizes centralizadoras do governo republicano. Com o tempo, acrescentaria uma outra condição: que o escolhido fosse um militar recrutado entre o quadro tenentista, com isso garantiria neutralidade política do interventor. O trabalho revolucionário começava conturbado. As razões passavam pelos vícios da política oligárquica e seriam difíceis de ser removidos.

Favor citar da seguinte forma:

SILVA, J. de A; SILVA, S. E. da e PEREIRA, R. B.; SANTOS, A J. dos e ARAÚJO, W. G. A Revolução de 30 no RN. História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web: <URL: www.seol.com.br/rnnaweb/>


TERESA PIRES DANTAS Esposa de Agenor Pereira de Araújo (1904/2005). Genitora de Agenor Pereira de Araújo Júnior. Filha de João Raphael Dantas (1888/1975 e de Joanna Petrolina de Medeiros. 


   MARIA BEATRIZ PIRES PEREIRA  (1929/2007) esposa de José Saturnino Pereira de Medeiros (1924-2014). Filha de Sérvulo Leodegário Pereira (1900-1935)  e de Francisca Pires Galvão (1904-1980). 



ENEAS PIRES GALVÃO 
Enéas Pires, Gonzaga Galvão, Felinto Elisio, Joca Pires 

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